sexta-feira, 26 de agosto de 2016

domingo, 21 de agosto de 2016

TOO MUCH TOO MUCH TOO M

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A embarcação teve o corpo partido num estalo. A brutalidade marítima era prevista, mas atingiu a nave cedo, na esquina do conforto e do medo. Um jaguar silencioso, faminto, rasgou as velas, dobrou os mastros, cortou a carne, o casco, feriu. Fez jorrar sangue profundo, denso e vital. Sangue fugiu da jugular e se lançou ao mar. Sangue gasto, perdido. E o capitão ferido na conexão da cabeça ao coração. Dor e dor e então o mar salgado. Homem ao mar, à deriva. E o mar respondeu, engolindo o homem. O capitão sentiu então outras dores, um punho torcido, uma costela quebrada e a escoriação de semanas atrás que ele havia deliberadamente ignorado. O sal reviveu dores antigas. Pés e pernas, tronco e braços pesaram. O casaco azul pesou. Sempre pesou, mas na água couro era pedra e sem muita cerimônia o capitão cedeu. O homem afunda porque pesa, mas principalmente porque cansa. E o cansaço - e o sal - fizeram o capitão pensar que se afundasse o suficiente encontraria a superfície. Pensou então na última vez que se perdeu pro mar e na mágoa e aflição em ter os pulmões preenchidos por água salgada. Sentiu dor e desolação. Deixou o mar levar as botas… e então casaco azul. Cedeu, leve e aberto pelo cortes, ao mar. Este, compassivo como poderia ser, decidiu não o afogar. Dançou com o corpo do homem num balé harmonioso. As águas tem anseios distintos. Dançou até se cansar dos movimentos desconcertados e do corpo inerte do homem. Entregou-o, por fim, à terra.

*** inspirado por trichrome-blue, da loish.